segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Voto distrital?

Prof. de História da UFSM refuta a idéia de "voto em candidatos da cidade" para deputados estadual e federal

A proposta de "voto distrital", que volta e meia retorna ao discurso dos políticos conservadores, teve espaço no Jornal A Razão de Santa Maria de 09 de outubro, onde políticos não-eleitos como Marcelo Bisogno reclamaram que "pessoas de fora da cidade" receberam votos de santa-marienses ao invés de candidatos erradicados no município. O Prof. de História da UFSM Diorge Konrad comentou a idéia refutando o voto distrital por favorecer o "voto a cabresto" e o "candidatos com maior poderio econômico". Leia abaixo o texto do professor na íntegra.

Voto em candidato de fora


É válida toda a campanha que procura valorizar a História, a cultura e a política local ou regional. Mas, se levado ao extremo, pode ser fonte de xenofobismo, quando não de incoerências.

No caso do voto em candidatos em uma eleição para deputados estaduais e federais ela é tão ambígua que salta aos olhos.

Na edição dos dias 9 e 10 de outubro de A Razão, o candidato Marcelo Bisogno se manifestou de forma mais contundente sobre a questão, manifestando o seu descontentamento.

Porém, em uma análise ligeira, se contasse apenas com os votos locais, de 7.844 ele baixaria para 5.930 votos, portanto mais longe ainda da eleição. Por outro lado, o candidato Paulo Pimenta teria em Santa Maria apenas 42.948 votos, não conquistando a cadeira de deputado federal em sua coligaçao, enquanto que, com a votação em todo o estado, obteve a primeira vaga de sua legenda, com 153.072 votos. Já o candidato a deputado estadual Valdeci Oliveira, o 10º mais votado do Rio Grande do Sul, se contasse somente com os votos dos santa-marienses teria seus 46.527 votos, ficando atrás da última eleita de sua coligação, a deputada Stela Faria, que somou 48.070 votos. PORTANTO, NÃO SERIA DEPUTADO ESTADUAL, NEM POR SANTA MARIA, NEM DO RIO GRANDE DO SUL. O mesmo aconteceria com Jorge Pozzobom, com a preferência de apenas 25.095 eleitores santa-marienses.

Candidato considerado local como Marchezan Jr teve apenas 9.924 simpatizantes de Santa Maria, enquanto que 21.293 porto-alegrenses, onde ele está radicado, confiaram em sua plataforma.

A imprensa poderia contribuir ainda mais com este debate, divulgando projetos e recursos de emendas parlamentares para Santa Maria e região de deputados reeleitos e que têm domicílio eleitoral fora da cidade. Seria interessante, também, proporcionar ou estimular uma análise do porque da votação de outros candidatos de fora que tiveram votos por aqui e estrearão na Câmara dos Deputados e na Assembléia Legislativa, bem porque candidatos de Santa Maria conquistam votos em várias cidades gaúchas.

Talvez, assim, uma idéia distorcida de política que tratou as recentes eleições como se fossem para a Câmara de Vereadores, pois deputados estaduais são eleitos para legislar para todo o Rio Grande do Sul, enquanto os federais para todo o País, não tivesse mais vez em eleições futuras.

A não ser que por trás destas campanhas está a defesa do voto distrital puro, o qual, numa realidade como a do Brasil, que tem em sua história política o “voto a cabresto”, tende a ser muito conservador, pois favoreceria mais do que hoje os candidatos com maior poder econômico. Que se aprofunde o debate.


Diorge Alceno Konrad
diorgekonrad@bol.com.br
Professor UFSM
Santa Maria


sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Comparando FHC/Serra com Lula/Dilma

Designer elabora infográfico comparando governos FHC e Lula

O doutorando em Design pela PUC do RJ Bruno Barros elaborou e divulgou via e-mail e redes sociais panfleto comparando os governos de Fernando Henrique Cardoso, do Partido do atual candidato José Serra (PSDB), e do presidente Lula, do Partido da atual candidata Dilma Roussef (PT), ambos concorrentes nas eleições presidenciais no segundo turno. Com base em dados da Fundação Getúlio Vargas, Ministério do Trabalho, Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA), Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Folha de São Paulo e O Globo, muito mais do que uma peça publicitária, o infográfico compara de maneira didática os resultados práticos da gestão neoliberal de FHC com a gestão desenvolvimentista de Lula. Clique nas imagens abaixo para visualizar melhor.



terça-feira, 5 de outubro de 2010

Dilma x Serra

Altair Freitas: Serra representa Estado fraco e perda de direitos


Fico sempre impressionado quando me detenho analisando os gráficos sócio-econômicos da "Era FHC" e sobre os efeitos gerais para a vida das pessoas ao longo daqueles oito anos e as decorrências para os dias atuais. Desmonte do Estado Nacional, declínio econômico e perda de direitos sociais e trabalhistas foram alguns itens da "herança maldita" que os tucanos deixaram depois de oito anos no poder.

Por Altair Freitas, no seu blog.

Para fazermos um balanço adequado sobre "Era Lula", é importante partir de algumas premissas fundamentais: 1) Por que Lula foi eleito em 2002, após ter perdido três eleições presidenciais consecutivas (89, 94 e 98)? Quais foram os elementos sócio-econômicos e políticos que possibilitaram uma viragem histórica na composição das forças políticas à frente do Estado Nacional a partir daquela eleição; 2) Que expectativa tinha o povo em relação ao governo de um político cuja origem para a vida pública estava marcadamente ligada ao movimento sindical, um nordestino retirante e sem formação acadêmica, presidente até pouco tempo de um partido de esquerda com forte discurso social-reformista, instintivamente de caráter socialista mas sem jamais ter assumido claramente esse aspecto ideológico, e sem experiência administrativa em âmbito federal?

Responder a esses dois questionamentos é fundamental para podermos traçar de modo mais abragente a trajetória do governo Lula, suas opções programáticas concretas, a implementação das principais ações governamentais, seus resultados mais gerais bem como foi a montagem política dos dois governos, uma vez que o sucesso no primeiro quadriênio conduziu Lula a uma reeleição consagradora em 2006.

Um sintético balanço da Era FHC - desmonte do Estado Nacional, declínio econômico e perda de direitos sociais - nos dão todas as pistas para resolver a primeira questão: por que Lula foi eleito? Em meu socorro, pego emprestado uma esclarecedora declaração de um dos principais ideólogos do PSDB, o economista José Mendonça de Barros, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda entre 95 e 98, e ex-secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior da Presidência da República entre abril e novembro de 98, que define com precisão um elemento fundamental que diferencia FHC de Lula, ou para sermos mais exatos e deixarmos as personalidades de lado, as diferenças de concepção entre o que chamo aqui de bloco demo-tucano e o bloco de forças encabeçado pelo PT e os diversos partidos e forças sociais que dão sustentação ao atual governo:

“A grande diferença geral que há entre as duas
administrações é a concepção de Estado. No governo
FHC a concepção era de um Estado menor,
mais regulador, voltado para os gastos prioritários
na área social, privatizando, concedendo e terceirizando.
No caso do governo Lula, até agora a orientação
geral é mais Estado, mais funcionários, menos
terceirização, menos privatização, menos capital
privado, menos agências reguladoras, mais poder
para os ministérios. Eu acho essa visão absolutamente
ultrapassada e que não funciona”


Se lermos com atenção, essa declaração do pensador tucano sistematiza de modo brilhante o que foi a Era FCH e o que tem sido a Era Lula. Interessante notar com particular acento a última frase da comparação: "Eu acho essa visão - o reforço da estrutura do Estado Nacional - ultrapassada e que não funciona". Vale lembrar que essa afirmação foi feita por volta de 2006, ano em que Lula foi reeleito. Vale lembrar que Lula termina seu mandato batendo todos os recordes de popularidade da história política brasileira e que seu governo também é avaliado como o melhor avaliado desde que se começou a fazer esse tipo de enquete sobre a percepção popular em relação aos presidentes e seus governos. Mas, claro, na visão tucana, a concepção de Estado das forças que dão sustentação a Lula é "ultrapassada" e "não fuciona"! Só esqueceram de combinar com mais de 80% do povo para que as opiniões convergissem!

Fernando Henrique foi eleito na esteira do sucesso imediato do Plano Real, lançado durante o mandato tampão do presidente Itamar Franco, de quem era Ministro da Fazenda, cujo sucesso imediato no combate à inflação garantiu a FHC a vitória nas eleições presidenciais de 1994. A partir de 95, construindo uma base política conservadora tendo como polo principal a aliança entre PSDB/PFL (atual DEM) e com amplo apoio dos setores conservadores da sociedade brasileira e ainda com respaldo popular graças à estabilidade inicial do Real, FHC iniciou um amplo processo de reformas estruturais que, singelamente falando, nada mais foram do que a implementação do neoliberalismo gestado nos EUA e na Inglaterra. E a aliança demo-tucana foi profundamente habilidosa e competente para neoliberalizar o Brasil. Ao lado das medidas macro-econômicas para sustentar o Real como moeda e manter a inflação sobre controle, o resultado beirou o trágico ao final dos oito anos do reinado tucano.

Para não ficarmos com frases soltas e afirmações desconexas, sintetizo as linhas gerais do governo tucano, sua lógica, medidas fundamentais e efeitos principais, assim alinhados para que o quadro todo seja um pouco menos complexo, mais didático:

A Lógica geral:

A) Abrir o mercado brasileiro aos produtos estrangeiros para forçar, com esse mecanismo, a manutenção dos preços dos produtos aqui produzidos em um patamar aceitável, adotando a chamada "meta anual de inflação". Essa medida já havia sido adotada por Collor através da redução abrupta das aliquotas de importação, quebrando o que se chamava à época de "protecionismo" à indústria nacional;

B) Contratação de novos e vultuosos endividamentos externos para lastrear a moeda, o Real, bem como para quitar dívidas anteriores;

C) Implementação de uma elevadíssima taxa de juros como mecanismo para a manutenção do capital estrangeiro investido no Brasil, notadamente no setor especulativo, também como mecanismo para irrigar a circulação monetária e criar a ilusão de que a nossa moeda era efetivamente forte;

D) Enxugamento da máquina pública nos três níveis (federal, estadual, municipal) com demissão de funcionários públicos, corte em serviços prestados à população e privatização ou terceirização de diversas outras atividades até então prestadas pelo Estado;

E) Privatização de empresas estatais e quebra do controle do Estado sobre setores estratégicos da economia, abrindo ainda mais o espaço para a presença de conglomerados estrangeiros controlarem setores inteiros da economia brasileira

F) Fim ou precarização de direitos trabalhistas, de modo a desonerar as empresas do que alegavam ser gastos excessivos com direitos, elementos que limitariam sua capacidade concorrencial;

G) Intensificação das relações econômicas com os EUA e o atrelamento praticamente automático às deliberações da diplomacia norte-americana.

A partir desses sete elementos centrais o governo de Fernando Henrique, respaldado por um leque amplo de partidos que lhe deram sustentação no Congresso Nacional, por praticamente todos os meios de comunicação vinculados ao oligopólio midiático, pelos grandes especuladores mundiais e pela diplomacia das grandes potências, estruturou e implementou um dos mais arrojados e vitoriosos projetos de aplicação do neoliberalismo no mundo. Evidente que cada uma dessas linhas e cada medida subsequente sempre foram apresentadas ao grande público como vitais para o desenvolvimento do país, para o avanço social e econômico. Para melhorar a saúde, a educação e trazer a felicidade geral da nação!

Efeitos Gerais

Fico sempre impressionado quando me detenho analisando os gráficos sócio-econômicos da "Era FHC" e sobre os efeitos gerais para a vida das pessoas ao longo daqueles oito anos e as decorrências para os dias atuais. A estabilidade econômica que é de fato uma coisa muito importante, e a modernização tecnológica que nos possibilitou acesso a computadores modernos e telefonia celular em larga escala (ou a chamada "revolução nos meios de comunicação"), foram, provavelmente, o grande legado positivo, em paralelo com o aumento do índice geral de matriculas das crianças no Ensino Fundamental. É evidente que todos nós gostamos de ter internet, pcs de última geração com muitos gigabytes de memória e processadores rápidos e telefones celulares que fazem de tudo, inclusive ligação telefônica! Adoramos essas bugigangas eletrônicas disponíveis em qualquer esquina. É evidente ser importante ter o maior número possível de crianças e adolescentes frequentando regularmente as escolas.

Ainda assim, mesmo nestes tres ítens (estabilidade,modernização teconológica e acesso à escolarização básica), é preciso destacar que os dois primeiros deram-se às custas de uma brutal desnacionalização da nossa economia. Para quem limita-se a ir às compras e pouco está interessado em saber a procedência dos produtos que compra, parece legal ter acesso a tudo o que circula no mundo. Ter acesso a isso tudo cria uma subjetividade de integração com os países mais desenvolvidos. Se tem nos EUA, na Europa, no Japão, porque não pode ter aqui? O problema disso é que parte significativa da riqueza gerada pela produção e venda (venha ela das importações, venha ela da produção feita em solo pátrio mas sob controle de multinacionais), vai para fora do país, e esse elemento tem sido históricamente um forte inibidor do nosso próprio desenvolvimento econômico, qualitativa e quantitativamente falando, notadamente no que diz respeito ao desenvolvimento tecnológico e à geração de emprego e renda. Sobre a educação, FHC deu sequência à lógica anterior de massificação do acesso - positivo, insisto -sem que a universalização da escola fosse acompanhada de um ensino efetivamente qualificado e os atuais índices de análise nos mostram forte defasagem entre o acesso e a qualidade do ensino, notadamente nas redes públicas.

Feitas estas observação iniciais, que considero fundamentais para debatermos os rumos do desenvolvimento nacional daqui para frente, retorno a como estava o Brasil ao final da Era FHC, apresentando alguns dados estatísticos que podem ser enfadonhos, mas são substantivos para referendar a linha de raciocínio que aqui desenvolvo bem como para termos uma visão mais global sobre os resultados gerais daquele período.

Conforme dados do IBGE, em 1994 - ano da implantação do Real e da eleição de FHC à presidência - existiam cerca de 4,5 milhões de desempregados no país. Em 2000 esse número havia quase triplicado, chegando à casa dos 11,5 milhões. Em números anuais, isso significou mais de 1 milhão a mais de desempregados a cada ano. De fato, um "sucesso" econômico sem precedentes!

Junto ao desemprego brutal, e inclusive como efeito dele, a renda média dos trabalhadores desabou nos úlitmos quatro anos de FHC (98-2002) superando os 10% de queda em quatro anos, contrariando portanto a propaganda de que o Real sempre foi um grande sucesso na recuperação da renda nacional, fato efetivo nos primeiros anos mas que passou a ser fortemente revertido no segundo mandato. Outro efeito perverso do descalambro no campo do trabalho foi o enorme avanço da informalidade. Em 2002, para um universo de 76,5 milhões de pessoas que faziam parte da População Economicamente Ativa, apenas 24 milhões tinham emprego formal que lhes garantisse proteções sociais básicas consignadas pela legislação através da contratação formal via carteira de trabalho. Sempre, segundo o DIEESE, boa parte dos trabalhadores informais tinha jornada semanal na faixa das 76 horas!

Sempre é bom lembrar que foi durante aquele governo que implantou-se a chamada flexibilização nas relações trabalhistas, adotando-se a lógica de que prevaleceria nas relações de trabalho o resultado das negociações entre patrões e empregados, em detrimento da legislação vigente. Ou seja, em uma época de avanço brutal do desemprego e aumento do chamado "exército de reserva de mão de obra", os sindicatos trabalhistas foram forçados a aceitar acordos pífios no tocante aos reajustes salariais e viram parte das conquistas obtidas ao longo de décadas virarem fumaça face à pressão patronal e total descaso do governo federal.

No que diz respeito às nossas fragilidades externas, à nossa histórica dependência, o reinado demotucano longe de buscar sua superação e resgatar padrões minimamente adequados de soberania nacional, simplesmente aprofundou ainda mais a nossa submissão aos ditames das grandes potências.

A dívida externa brasileira deu um vertiginoso salto, passando de US148 bi em 1994 até atingir o pico de U$ 235 bi em 1999 e largando no colo de Lula uma divida consolidada de U$ 210 bi em 2002. Se a dívida dobrou, evidentemente isso significou uma sangria sem fim para a riqueza nacional pois o que já era elevado tornou-se ainda maior. Pior do que a dívida em sí, o pagamento de juros e amortizações ao capital financeiro internacional drenou da riqueza nacional a fabulosa quantia de U$ 380 bilhões entre 1994 e 2009, fruto dos acordos para o seu pagamento firmados entre FHC e o FMI. Não, não estamos vendo os números errados! Apenas em juros e amortizações, o Brasil (leia-se nós, o povo) pagou quase o dobro em relação à dívida existente em 2002. Como eu digo, ações adotadas em um governo, dependendo da sua vultuosidade, deixam seus efeitos anos a fio após o seu término.

Essa enorme fragilidade externa consumiu muito rapidamente os valores arrecadados com as privatizações feitas naqueles oito anos. FHC e seus tucanos privatizaram 68 empresas estatais arrecandando um montante de pífios U$ 70 bilhões. Quem se recorda da propaganda oficial que dizia que o dinheiro das privatizações serviriam para alimentar a saúde, educação, saneamento básico, etc? Além de terem se desfeito de empresas estratégicas como a Cia. Siderúrgica Nacional, Vale do Rio Doce, de todo o sistema Telebrás, e fragilizado intensamente a capacidade do Estado Nacional em impulsionar o desenvolvimento econômico, nossos bravos campeões do liberalismo tupiniquim fizeram os recursos obtidos (insisto, pífios, pois os valores das empresas foram acintosamente rebaixados para vender mais facilmente) virarem fumaça à medida em que as parcelas da dívida externa iam sendo quitadas.

A essa altura do torneio fica sempre mais evidente que não havia possibilidades efetivas de um amplo desenvolvimento sócio econômico do Brasil tendo como pressupostos os números acima apresentados. E só estou arranhando a crosta do problema quando apresento esse tipo de dados. É natural que o desenvolvimento geral do país e das condições de vida da população não tivessem condições de registrar avanços significativos.

O crescimento médio do PIB durante aqueles oito fatídicos anos de desmonte foi de apenas 2,4%, abaixo inclusive dos 3,3% de crescimento médio da década de oitenta, que ficou conhecida como "década perdida". Se os anos 80 foram a década perdida, os anos 90 - somando o curto período de Collor, os breves sucessos iniciais do Plano Real entre 94 e 96 e os dois governos de FHC - foram a década de um enorme retrocesso em praticamente todos os quesitos que eu possa analisar, para considerar um país como desenvolvido, soberando e com povo vivendo dentro de padrões minimamente adequados.

Evidente que ao longo daqueles anos, prolongando-se até os dias atuais, mesmo considerando os avanços do governo Lula, os índices sócio econômicos foram declinantes. O Relatório sobre o Desenvolvimento Humano de 2002 da ONU colocava o Brasil como o quarto país com maior concentração de renda no mundo. Só perdía mos para países muito pobres como Serra Leoa, República Centro-Africana e Suazilândia. Pelos dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), 1% dos brasileiros mais ricos concentram 13,6% de toda a renda do país, ao passo que os 50% mais pobres atingiam somente 14,4% da renda total. Ao mesmo tempo, a resultante geral foi o crescimento da concentração da renda, o feroz crescimento da rentabilidade dos bancos e, óbvio, aumento nos índices gerais de violência.

Em 1980 a taxa de homicídios entre jovens era de 17,2 por 100 mil habitantes. Em 1990, era de 38,8. Em 1999, no início do segundo mandato de FHC, o número saltou para 48,5. No fim de seu governo, o número passou dos 50 por 100 mil habitantes. Ou seja, em 22 anos (a década perdida e a década do retrocesso) houve um crescimento de 202,9% na taxa de homicídios entre jovens. Segundo a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) entre os 60 países mais perigosos do mundo, o Brasil só perde para Colômbia e Porto Rico no número de jovens assassinados.

Fiz questão de colocar esses dados, reflexões e ponderações sobre a Era FHC por considerar, como já o disse, ser fundamental analisar a herança recebida por Lula em janeiro de 2003 quando assumiu o mandato. Uma herança pesada, ou "herança maldita" como era dito à época. O Brasil vinha de 25 anos de forte declínio econômico, desnacionalização crescente da economia, forte retração nos índices sociais, desregulamentações e perdas de direitos trabalhistas, precarização dos serviços prestados pelo poder público nos três níveis, etc, etc. Era sobre essa base perversa que Lula tinha que buscar a recomposição mínima da capacidade do país em gerar empregos, renda, superar a atroz fragilidade externa e retomar a capacidade do Estado Nacional em ser um impulsionador do desenvolvimento geral.

Analisar o governo Lula sem partir desses pressupostos é fazer uma leitura, no mínimo, pela metade da história recente. É criar uma ilha artificial, desconectando o seu período dos períodos anteriores, como se o seu governo pudesse ser interpretado apenas pelo o que nele aconteceu; como se as circunstâncias históricas da sua atuação não estivessem umbilicalmente ligados ao passado recente e muitas das suas atitudes - erros e acertos - fossem apenas fruto da vontade, sagacidade, esperteza ou impotência frente à situação.

Finalmente, não é a toa que havia uma enorme expectativa popular em relação ao sucesso de Lula como presidente da república. Menos pelas suas origens e trajetória política, mas muito mais pelas necessidades de retomada do crescimento econômico e desenvolvimento social que, no mínimo, aliviassem a situação de penúria que atingia grandes contingentes da população. Considerando os índices gerais de aprovação a Lula como personagem político e ao seu governo como estrutura de poder, quero crer que o povo teve suas expectativas, de modo geral, atendidas.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Balanço da campanha

Blog Igor de Fato saúda militância que tornou possível vitória da esquerda no RS e conclama a continuidade da luta






Na foto acima, o governador eleito com 54% dos votos exibe a bandeira do Rio Grande do Sul após divulgação do resultado oficial no dia de ontem na Avenida João Pessoa, em frente a sede do Partido dos Trabalhadores. Nas fotos abaixo, os três deputados eleitos pelo PCdoB do RS: Assis Melo, Manuela D´Avila e Raul Carrion.

Congresso Nacional e Assembléia Legislativa ampliam bancada de deputados sintonizados com o projeto nacional de desenvolvimento iniciado pelo governo Lula e que podem ser continuados por Dilma. Paim se reelege e Abgail se projeta como liderança expressiva.

Agradecimento pela vitória de Raul Carrion e Manuela

Milhares de pessoas construíram essa vitória, mas cabe alguns agradecimentos especiais. O blog Igor de Fato agradece em especial aos companheiros do Hip Hop de Santa Maria/RS Magrão e Gabi pelo militância em pról de Raul Carrion e Manuela D'Ávila. Também fica o agradecimento a Marquita Quevedo, do Movimento LGBT de Santa Maria/RS, pelo reconhecimento do trabalho de Manuela na luta contra a homofobia, bem como agradecemos o reconhecimento de Mozarte Simões, coordenador da ASSUFRGS, ao trabalho da deputada Manuela na Câmara em favor do interesse dos trabalhadores. Vale citar ainda o amigo Lincoln Pereira, de Alegrete/RS que me informou ter se filiado no PCdoB durante essa campanha pelo reconhecimento a atuação de Manuela e às ideias deste partido.

Na figura dessas pessoas, queremos agradecer a toda a miltância e simpatizantes que tornaram possíveis a histórica eleição de Manuela D'Ávila com quase meio milhão de votos, a histórica eleição do metalúrgico de Caxias Assis Melo e do historiador Raul Carrion. Essa vitória é dos trabalhadores, da juventude, da periferia, e das pessoas que lutam contra toda a forma de opressão, em particular a homofobia e o racismo.

A luta continua: eleger Dilma é prioridade

A campanha ainda não acabou. A militância precisa continuar firme se empenhando na essencial tarefa de eleger Dilma Roussef a primeira presidente mulher da história desse país, para continuar as mudanças iniciadas pelo governo Lula.

Em todos os rincões desse RS, a militância não parará. Dilma 13 para o Brasil seguir mudando.

Até a vitória.

sábado, 2 de outubro de 2010

Último dia de campanha

Parada final: Santa Maria


Reunido com queridos amigos e companheiros de militância, vivi hoje o último dia de campanha na velha Santa Maria. Tudo aconteceu ao natural, sem muita combinação. Já ontem na vinda de Porto Alegre, casualmente peguei o mesmo ônibus que Mauricio, Chavito, Anita, e até o Edinho, que há muito não via. Na pastelaria, encontrei meu irmão Sandro que há muito não via. Também Joana D'Arc, defensora dos indígenas.

Hoje à tarde, no Calçadão de Santa Maria, pude conversar com Gabi e Magrão, felizes por terem comprado caixa de som e microfones para o Guerrilha da Paz do dia 16 de outubro. Panfleteei ao lado de Pablo, Chavito, Mauricio e Luciele. Encontrei Matias, Kalu, Rogier, Nadiene, Cris, Pedro, Leandro, Fernando, Heloísa... Emoção ao sentir a energia positiva das ruas, a boa disposição da militância, que parece irmanada em torno do projeto que está mudando o Brasil e que pode avançar no Rio Grande do Sul.

Conto esses detalhes para registrar esse momento. Tenho a sensação de ajudar a escrever a história. A realidade é imensa. Esse dia é grandioso. Estamos prontos.

Logo abaixo, a lembrança do dia de hoje.

Para sempre guardado.

Mauricio, Magrão, Gabi, Matias, Chavito, Luciele, eu e Pablo

Excelente receptividade da população: 30% dos eleitores se decidem no último dia

Com Kalú, histórico militante social
Pablo, Nadiene, eu, Lu, Mauricio, Cris e July.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Novo e Velho Brasil

O novo e o velho Brasil coexistem

Estamos na reta final da campanha, mas nessa manhã eu fiz uma paradinha para pensar um pouco nesse momento que o país vive. É um momento novo, um momento de mudança. E como bem reflete Renato Rabelo, "para o novo surgir e crescer, sempre surge entranhado com o velho". Essa análise é importante para que a gente não se perca e fique sem entender o que está acontecendo.

Tem muita gente que está na turma dos "desiludidos" porque não está entendendo isso. Muitos dos que votaram em Lula em 2002 hoje não votam em Dilma, porque acham que Lula os traiu, baseados nos escândalos do suposto mensalão. Os factóides de corrupção que pulularam na mídia nas eleições de 2006, somados a política econômica de juros altos que privilegia os banqueiros foram um baque para um importante extrato da classe média que se considerou "enganada" . É nessa classe média que está fundamentalmente a base eleitoral de partidos midiáticos como PSOL de Heloísa Helena, e o próprio PV de Marina Silva.

Em 2006, sob ataques raivosos da imprensa empresarial (Globo, Veja, Folha, etc) aliados às vociferações do setor radicalizado da classe média que teve em Heloísa Helena sua melhor porta-voz, Lula mesmo assim resistiu e foi reeleito. Por que? No momento em que a classe média, antes eleitora de Lula, em parte o abandonou, ele foi sustentado por dois extratos da população que antes o apoiavam bem menos: os ricos (industriais, banqueiros, etc) e a população mais pobre, beneficiada pelo Bolsa Família, entre outras políticas.

Essa mudança do eleitorado de Lula reflete uma mudança importante. Os quatro anos iniciais de Lula, caracterizados por uma manutenção dos juros altos aliada às políticas sociais de distribuição de renda criou essa base eleitoral dual.

No Nordeste, onde Lula tem 80% de popularidade, e onde a pobreza é mais intensa, o cenário eleitoral apresenta aspectos curiosos dessa dualidade. Vale destacar Pernambuco e Bahia, onde Eduardo Campos, do PSB, e Jaques Wagner, do PT, estão disparados nas pesquisas das eleições dos governos estaduais, com grandes chances de vitória, representando uma derrota histórica para o coronelismo. No mesmo Nordeste, no Maranhão, a candidata das oligarquias Roseana Sarney é a favorita para a vitória, com o apoio constrangido do PT. Como se vê, a vitória do "novo" em Pernambuco e Bahia pode vir acompanhada da vitória do "velho" no Maranhão.

Conversando com amigos que estiveram no Nordeste, pude ter visões das mudanças que estão acontecendo naquela região. A transposição do Rio São Francisco, aliada às obras do PAC e ao Bolsa Família, estão gerando empregos, levando luz e água para populações que antes tinham acesso precário a esses bens essenciais. Trata-se de um massivo movimento de melhoria da qualidade de vida de milhões de pessoas que antes não tinham o básico do básico: água, comida, luz, emprego decente. Essa é a camada mais intensamente grata a Lula.

Um relato de um nordestino me chamou atenção a respeito disso. Ele me disse que várias pessoas do sul, onde a classe média é mais representativa, acham que os nordestinos são "alienados", que foram "comprados" pelo Bolsa Família. Ele argumenta que essa é uma ideia preconceituosa que a classe média têm dos mais pobres. Acham que os pobres são "burros", sempre massa de manobra.

Ele explicou que os nordestinos pobres sempre souberam que eram explorados pelos coronéis e em grande parte sempre votaram neles, não por serem enganados, mas porque isso lhes garantia minimamente a sobrevivência com as esmolas dadas em troca da permanência no Poder. Mesmo que a esquerda dissesse ao sertanejo pobre que deveria se revoltar por sua pobreza, a dureza da vida severina lhes fazia aceitar calado sua exploração, porque para quem está na miséria, fica difícil projetar grandes projetos de mudança, se pensa em ter um prato de comida para si e para a família.

O Bolsa Família rompeu com o ciclo do coronelismo porque mostrou ao sertanejo concretamente que é possível uma política pública que o permita segurança alimentar sem depender do coronel. Permitiu que o sertanejo pobre tivesse a dignidade de recusar a esmola do coronel. O povo nordestino é eternamente grato ao filho de Garanhuns, e por isso apóia a "Mulher de Lula". Entender esse apoio como "renovação do coronelismo" é desrespeitar a posição política de uma classe que tomou uma decisão legítima em defesa de seus interesses, a despeito da tentativa de manipulação da mídia.

Voltando ao pensamento de Rabelo, "para o novo surgir e crescer, sempre surge entranhado com o velho". Para entender o momento em que vivemos, esse pensamento é essencial.

O Brasil vive seu melhor momento desde a redemocratização, com indicadores sociais consideráveis: 12 milhões de empregos gerados, 27 milhões de pessoas saídas da linha da pobreza, 14 universidades federais novas, milhares de concursos públicos, vagas novas nas universidades, salário mínimo de 300 dólares, a valorização da PETROBRAS. Mas essa novidade surgiu emaranhada no "velho", que representa os juros e os altos lucros dos banqueiros, a manutenção de focos de poder das oligarquias nos meios de comunicação, no sistema político, na estrutura urbana e rural. Dilma, se eleita, fará uma gestão marcada por essa dualidade entre o "novo", que é a emergência da população mais pobre, e o "velho" que é a manutenção dos privilégios da burguesia financeira.

Para colaborar na vitória do novo, a luta será permanente. No entanto, sem clareza de projeto para o país, a luta pode se dar de maneira atabalhoada, atacando muitas vezes inimigos imaginários. Boa parte da classe média está sem projeto de Nação, presa num discurso vazio da ética, da desvalorização da política, do desencanto com o mundo e com o país. Esse setor "desiludido" da classe média teria muito a contribuir com o país se olhasse com solidariedade para o fenômeno novo da conquista da cidadania de milhões de pessoas que estão saindo da miséria, conquistando empregos, entrando nas universidades.

Se a classe média se alia com a classe baixa, o governo poderá ter força para desamarrar nós que parecem cegos, como a reforma tributária com taxação progressiva, desonerando os mais pobres e onerando os mais ricos, a reforma política com financiamento público exlusivo e voto em lista, a reforma urbana que garanta o acesso de todos a cidade, a reforma agrária com a distribuição de terras, a democratização dos meios de comunicação.

A classe média tem em suas mãos uma oportunidade histórica. Basta saber se estará a altura de sua responsabilidade com o país de contribuir para o novo triunfar sobre o velho na construção de uma nação forte, com democracia e distribuição de renda.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Relatos de uma campanha

Direto do front da campanha Para o Brasil e o RS seguir mudando

Estou preso à vida e olho meus companheiros.

Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Carlos Drummond de Andrade

Lembrei-me de Drummond nesse dia exaustivo de campanha. Desde às sete da manhã até às sete da noite no Campus do Vale da UFRGS, olhava meus companheiros. Cansados, esgotados, não deixavam de nutrir grandes esperanças. Não aquela esperança que é um braços cruzados e esperar, mas aquela esperança que surge do trabalho árduo, incansável, no presente, pela construção do amanhã.

Se o presente é de luta o futuro nos pertence.

Minha companheira mais próxima, Luciele, acompanhou-me do início ao fim, sendo determinante para o êxito da empreitada de hoje.

Seguimos avançando, a cada dia. Encontramos pessoas, conversamos, panfleteamos. O presente é tão grande meus companheiros, não nos afastemos. Falta pouco. A vitória parece próxima, mas não podemos arrefecer. Derrotar a direita no executivo, ganhando postos no legislativo é nossa missão nessa grande batalha eleitoral. Dilma, Tarso, Paim, Abgail, Manu, Assis, Jussara, Carrion e tantos outros. A vitória deles é a nossa vitória.

Sabemos que essa batalha é só uma etapa de todo o processo, mas é uma etapa importante. Por mais banal que possa parecer nossa participação nesse processo, não podemos nos furtar de fazê-la. Às dezenas de milhares de militantes anônimos que constróem as vitórias dessas personalidades políticas, meu humilde apelo: não diminuam o ritmo. O Brasil e o Rio Grande do Sul precisam continuar mudando, e isso está no trabalho de vocês. Do nosso.

É tempo de avançar de mão dada.

Até a vitória.